"Um espaço reservado para falar das lembranças, histórias e episódios dos mais de 60 anos de Mil Milhas Brasileiras. E de outras coisas mais!"

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Retrospectiva Mil Milhas: 2021

Continuando a retrospectiva sobre a retomada das Mil Milhas Brasileiras, falaremos hoje sobre a 38ª edição da prova, disputada em 23 de janeiro de 2021. Se a edição de 2020 foi cercada por incertezas, a prova seguinte sofreu um golpe ainda mais duro, pois estávamos sob um dos picos da pandemia de Covid-19 que deixou o mundo de cabeça para baixo.

A instabilidade trazida pela doença afetou não só a receita para a realização da prova, mas também a dúvida de que as datas designadas seriam cumpridas. Houve ainda a mudança na organização, pois a promotora Elione Queiroz passou a organização para Thiago Pereira, que por sua vez chegou a participar da corrida como piloto em um Honda Civic (que ficou pronto no dia dos treinos oficiais, diga-se de passagem).

Mas contra tudo isso, as Mil Milhas foram realizadas no dia 24 de janeiro, embora com mudança no horário da largada (seria à meia noite e acabou ocorrendo às 08h50m), algumas desistências e não comparecimentos, além da limitação em 10 (dez) horas de corrida, em razão da política de convívio social adotada pela Prefeitura Municipal de São Paulo para conter o avanço dos casos da doença. Só que antes da bandeira verde, ainda houve um susto nos boxes, pois o protótipo MRX nº 34 sofreu um incêndio, sem maiores danos.

Dada a largada, os 25 bólidos inscritos foram à pista, correndo dentro das possibilidades de suas equipes (briga pela vitória na geral, respectiva categoria ou participação no espetáculo). O certo é que o grid ainda reduzido para os padrões da prova (mas como o dobro de carros do ano anterior) foi protagonista de disputas dignas de aplausos, com direito à corrida com chuva a partir da metade da disputa, do jeito que uma Mil Milhas tem que ser.

Ao final, contando com quebras, paradas longas para reparos (a VW Brasília da equipe Mamba Negra teve o seu motor trocado, em virtude da quebra do bloco ainda na 2ª volta, causada por uma biela), rodadas, rodas voando (após 12 minutos de prova, o safety car foi acionado pela primeira vez, pois o BMW #64 da equipe MC Tubarão perdeu a roda traseira direita na descida do mergulho), passeios na brita, ultrapassagens, 19 carros cruzaram a linha de chegada, fechando mais um capítulo na história da prova, embora tenham sido dadas apenas 291 das 372 voltas previstas (por conta da limitação do tempo imposta pelas medidas sanitárias). Um fato inédito ocorrido nessa prova foi de o carro vencedor ter sido guiado por 05 (cinco) pilotos, quando máximo visto até então era de 04 (quatro).


O resultado final da prova (copilado do Blog do Carelli) ficou assim:


1º - #73 José Vilela / Leandro Totti / Eduardo Souza Pimenta / Guilherme Ghido / Léo Yoshi - Protótipo MCR 2.1 - Equipe LT Racing Team – Categoria P3 – 291 voltas

2º - #31 Leandro Guerra / Alexandre Zaninoto / Marcelo Camacho - Protótipo R1 - Equipe Guerra Motorsport – Categoria P4 – 287 voltas

3º - #46 Robbi Perez / José Cordova / Juliano Moro / Maurizio Sandro Sala - Protótipo Roco P3 - Equipe Roco Racing – Categoria P3 – 277 voltas

4º - #6 Caio Lacerda / Geovani Almeida / Humberto Guerra Jr. – Aldee Cupê VW - Equipe HT Guerra – Categoria P4 – 254 voltas

5º - #17 Otávio Carmacio / Rafael Kasai / Maurício Arias / Vinícius Salva - Chevrolet Celta - Equipe Oto Racing - Categoria TN1A – 249 voltas

6º - #115 Estevão Alexandre / Rogério Dudu / Honda Civic Si - Equipe Maguila Motors – Categoria TN1A - 249 voltas

7º - #32 Mauro Kern / Márcio Basso / Paulo Sousa / Wellington Cirino - Protótipo MC Tubarão - Equipe MC Tubarão – Categoria P2 – 248 voltas – volta mais rápida da prova: 1:39.689 (volta 88)

8º - #216 George Lisi / Riccardo Savio / Ricardo Parente - Chevrolet Corsa - Equipe Oto Racing = Categoria TN1A – 248 voltas

9º - #11 Bruna Tomaselli / Emilio Padron Ianez / Fernando Ohashi / Fernando Fortes / Henrique Assunção - Protótipo Hayabusa - Team Quarteto Fantástico & Mulher Maravilha – Categoria P3 – 241 voltas

10º - #14 A. Tavares / E. Teixeira / V. Lira / F. Cesario – Ford Fiesta – Categoria TN1A – 241 voltas – carro que ganhou mais posições desde a largada até o final da prova.

11º - #111 Rafinha Thiamer / Luiz Henrique / Mauricio Marchioni - Volkswagen Gol - Equipe MI Motors – Categoria TN1 – 233 voltas

12º - #64 Henry Visconde / Tiel de Andrade / Lucas Foresti - BMW M3 - Equipe MC Tubarão – Categoria GT4 – 229 voltas

13º - #3 Luciane Klai / Fernanda Aniceto / Renata Camargo - Volkswagen Voyage 1.6 - Equipe MI Motors – Categoria TN1 – 225 voltas

14º - #34 Mário Marcondes / Paulo Totaro / Márcio Mauro / Fábio Carbone - Protótipo MRX-Chevrolet 2.0 16V - Equipe Motorcar – Categoria P3 – 223 voltas

15º - #98 Nenê Finotti / Fábio Coelho / Marcelo Fortes - Volkswagen Passat - Equipe Coelho´s Racing / LF Competições / JR-Rodas – Categoria TN1 – 223 voltas

16º - #9 Ciro Paciello / Ricardo Alvarez / Evandro Camargo / Gelinho - Chevrolet Omega Stock Car - Equipe Big Power – Categoria TN1B – 198 voltas

17º - #84 Maurício Gonçalves / Marcelo Dias / Pedro Alexandre / Luiz Henrique - Volkswagen Gol 2.0 - Equipe MI Motors – Categoria TN1A – 197 voltas

18º - #74 R. Furquim / T. Soares / E. Souza - Protótipo Spyder 2.0 - Equipe LT Racing Team – Categoria P4 – 182 voltas

19º - #22 Tiago Regis / Ricardo Cimatti / Thiago Pereira - Honda Civic – Categoria TN1A – 157 voltas

20º - #63 Valter Fernandes / Marcos Fernandes / Marcos Nascar / Ricardo Domenech / Rogério Barbato - Chevrolet Astra V8 Stock Car - Equipe F&C Custom Garage – Categoria TN1B – 151 voltas

21º - #25 Ney Faustini / Ney Sá Faustini / Batistinha - Chevrolet Cobalt V8 Stock Car - Equipe Absoluta Racing – Categoria TN1B – 91 voltas

22º - #25 – Rodrigo Corbisier / Ricardo Gouveia – Chevrolet Corvette – Categoria GT3- 53 voltas

23º - #72 Deninho Casarini / Carlos Antunes / Marcelo Di Tripa / Marcelo Campagnolo - Protótipo MRX - Equipe Motorcar – Categoria P2 – 47 voltas

24º - #77 Edras Soares / Juarez Soares / Esdras Soares - Chevrolet Vectra V8 Stock Car - Equipe 2GO/HT Guerra – Categoria P1 – 37 voltas

25º - #96 Marcelo Servidone / Emerson Piedade / Luc Monteiro - Volkswagen Brasília - Equipe Mamba Negra – Categoria TN1A – 21 voltas


Alguns destaques da corrida












domingo, 15 de janeiro de 2023

Retrospectiva Mil Milhas: 2020

Nestes dias que antecedem a realização de mais uma edição das Mil Milhas Brasileiras, vamos fazer uma pequena retrospectiva das edições que marcaram a retomada da prova, iniciada no ano de 2020, após o hiato entre 2009 e 2019.

Cercada de desconfiança e de um lamentável boicote por parte de muita gente do automobilismo, Elione Queiroz assumiu a chancela da prova, indo de encontro ao pessimismo e negatividade de pessoas que diziam que as Mil Milhas só podem ser organizadas pelas figuras tradicionais de sua história. Aquelas figuras dentre as quais algumas delas foram responsáveis por transformar em uma imensa confusão jurídica e contábil a marca Mil Milhas Brasileiras...

Neste cenário pré-pandemia de Covid-19 (a largada foi dada à meia-noite do dia 16 de fevereiro de 2020), contamos com a transmissão ao vivo da largada e das 02 (duas) horas finais da prova pelo saudoso canal Fox Sports, com a narração do expert Téo José e os comentários do mestre Edgard Melo Filho. Gente do ramo e que dispensa comentários acerca de sua competência e conhecimento do assunto.

Naquela edição, a pole position foi registrada pelo Protótipo MCR Tubarão nº 32 do trio Mauro Kern/Paulo Sousa/Tiel de Andrade, com o tempo de 1min36s460, o qual permaneceu na liderança da prova nas primeiras horas, quando era pilotado por Tiel de Andrade. Porém, algumas voltas depois teve que abandonar por problemas de motor, deixando a briga (acirrada, com disputas em curvas e freadas) pela liderança entre a Mercedes AMG GT nº 20 (Flávio Abrunhoza/Leandro Ferrari/Renato Braga/Marcelo Brisac, 2º lugar no grid com o tempo de 1min38s905) e a Ginetta G55 nº 16 (Stuart Turvey/Renan Guerra/Elzio Vichiesi, que registrou a marca de 1min40s687, logo em seguida), que permaneceu na frente a maior parte da prova. Mas cabe lembrar também que o Chevrolet Colbalt V8 nº 25 da equipe Absoluta (Ney Faustini/Ney de Sá Faustini/Marcos Philippi) também ocupou o topo do grid por algumas voltas.

Por volta das 07 horas da manhã, cerca de 06 (seis) carros permaneciam na pista, liderados pela Ginetta G55, seguida pela Mercedes AMG GT, que perdeu algumas voltas parada no box, por problemas de freio. Mas naquele momento a surpresa ficava por conta do Omega Stock Car 4.1 da Equipe Big Power, que chegou a ocupar a 3ª posição por alguns momentos, antes de sofrer com problemas no diferencial e voltar à disputa algum tempo depois. Após o pequeno susto em uma das paradas nos boxes pela manhã (um pequeno incêndio), a Ginetta G55 fora conduzida para a vitória da 37ª edição das Mil Milhas Brasileiras, colocando o trio Stuart Turvey/Renan Guerra/Elzio Vichiesi definitivamente na história da prova. A melhor volta fora marcada pela Mercedes AMG GT, com 1min40s418, na 222ª passagem.

Por conta do regulamento, o tempo total de prova foi limitado a 11 horas, foram completadas 360 voltas das 373 necessárias para atingir a distância de 1000 milhas (373 x 4,309 km para cada volta em Interlagos, o que corresponde a pouco menos de 1.609 km ou 1000 milhas).


Fotos dos carros participantes:




1º – Esio Vichiese, Renan Guerra e Stuart Turvey (Ginetta G55 GT4) – 360 voltas em 11h01min00s312



2º – Leandro Ferrari, Flávio Abrunhoza, Marcelo Brisac e Renato Braga (Mercedes Benz AMG GT4) – a 5 voltas



3º – Gustavo Simon, Rafael Simon, Rafael Cardoso e Sérgio Cardoso (Protótipo MRX Honda 20v) – a 51 voltas




4º – José Vilela, Pipa Cardoso e Tinoco Soares (Protótipo Aldee Spyder VW 8v) – a 107 voltas




5º – Ciro Paciello, Álvaro Vilhena e Evandro Camargo (Chevrolet Omega 4.1) – a 125 voltas




6º – Marcelo Servidone, Luiz Finotti e Jorge Machado (Protótipo MCR VW 8v) – a 168 voltas



7º – Ney Faustini, Ney de Sá e Marcos Philippi (Chevrolet Cobalt Stock Car) – a 183 voltas



8º – Sérgio Martinez, Eduardo Pimenta e Luiz Oliveira (Protótipo Aldee Spyder VW 8v) – a 247 voltas




9º – Ricardo Rodrigues, Marcos Cassoli, Valter Barajas (Chevrolet Astra Stock Car) – a 325 voltas





10º – Carlos Antunes, Yuri Antunes, Mauro Auricchio e Lucas Marotta (Protótipo MRX Opel 16v) – a 332 voltas





11º – Edras Soares, Juarez Soares e Leandro de Almeida (Chevrolet Vectra Stock Car) – a 336 voltas





12º – Mauro Kern, Paulo Sousa e Tiel de Andrade (Protótipo MCR Tubarão IX Ford Duratec Turbo) – a 337 voltas

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Porsche 911 Carrera RS - 1993

O brasileiro (filho de alemães) Klaus Heitkötter era um piloto desconhecido do grande público do automobilismo nacional até 1992, quando venceu as Mil Milhas Brasileiras a bordo da BMW M3 2.3 nº 36 da equipe alemã Bychl Euroracing, em companhia dos alemães Jurgen Weiss e Marc Gindorff.

No ano seguinte, Klaus garantiu sua participação na prova pela equipe Konrad Motorsport, formando trio com Bern Effinger e Ornulf Widheim, à bordo de um Porsche 911 Carrera RS, similar ao dos vencedores daquela edição. O bólido foi inscrito com o nº 1 (por conta da vitória de Klaus no ano anterior) e chegou a liderar a prova, mas na 159ª volta, rodou e bateu no muro do S do Senna, tendo sua corrida por encerrada em virtude da quebra da junta homocinética.



sábado, 7 de janeiro de 2023

Peugeot 205 GTI 1.9 nas Mil Milhas de 1994

Com o desenvolvimento do mercado automobilístico no Brasil, a partir da segunda metade da década de 50, as provas de longa duração passaram a ser um verdadeiro laboratório para as fábricas, e posteriormente, para as revistas especializadas.

Assim, não era difícil encontrar nas listas de inscritos para as Mil Milhas, sobretudo nos anos 90 e início dos anos 2000, veículos cujos pilotos faziam parte das redações de publicações como Quatro Rodas, Racing, Motor Show, Motor 3 e Autoesporte.

Na edição seguinte à realização da prova, o público saciava a sua curiosidade a respeito das experiências dos pilotos e do comportamento dos veículos na mais tradicional prova de longa duração do automobilismo brasileiro, repleta de armadilhas (chuva, neblina, carros mais lentos na pista, fadiga do equipamento e dos pilotos, etc.) que se manifestavam, sobretudo, durante a madrugada em Interlagos.

Uma história semelhante fora contada em abril de 2021, quando abordamos a participação de 02 Hyundai Scoupe na prova de 1993, pilotados por jornalistas da revista Autoesporte. A matéria completa vocês podem conferir neste link.

Mas no presente post, trago para vocês o registro da participação do Peugeot 205 GTI 1.9 na edição de 1994. Na ocasião, o pequeno esportivo francês fora pilotado pelo trio Célio Debes Jr./Egídio Chichola Micci/Roberto Koitla.

Cabe lembrar que no ano de 2001, o piloto Célio Debes Jr. voltou a disputar a prova a bordo de um modelo da marca francesa, neste caso, um 306 1.8.

Adendo: O piloto e amigo Rômulo Amorim, cuja história nas pistas foi contada nesse blog em outubro de 2019, após a leitura desse post, lembrou que esse carro ficou exposto em uma antiga concessionária da Peugeot aqui em Maceió/AL, a Calais veículos. Inclusive, algumas modificações de competição utilizadas no pequeno hatch esportivo, serviram de base para aquelas utilizadas em seu Opala de corrida. 





Matéria produzida em parceria com o //blogdocarelli.blogspot.com

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Mil Milhas 2023

Queridos leitores! À meia-noite do dia 22 de janeiro, estaremos na expectativa pela largada de mais uma edição da prova mais tradicional do nosso automobilismo, a Mil Milhas Brasileiras. E como retomada desse nosso espaço, até lá estaremos falando sobre o assunto ao menos semanalmente, trazendo para vocês pedaços dessa história de quase 70 anos.

Prometo que esse blog não ficará mais tão ausente da lista de leitura de vocês, e como forma de iniciarmos essa nova fase, trago hoje um registro da 27ª edição, disputada em dezembro de 1998. Na foto, temos o Protótipo AS-Vectra 2.0 nº 22 e os pilotos Djalma Fogaça e Otávio Mesquita, que junto com Mário Covas Neto, alcançaram a 3ª posição na geral, com 367 voltas completadas, atrás apenas do AS Vectra vencedor e do Porsche 911 GT2 da equipe Konrad. Cabe lembrar que o protótipo largou da 16ª posição do grid, com o tempo alto de 1min51s730.



sábado, 31 de dezembro de 2022

O ídolo injustiçado Rubens Barrichello

Há um bom tempo que venho querendo parar por umas horas, e escrever com calma algumas linhas sobre um piloto que aprendi a admirar desde quando passei a acompanhar o automobilismo, isto em meados de 1998, quando tinha 07 anos de idade. Então, aproveitando esse final de ano mais tranquilo, vamos falar sobre Rubens Gonçalves Barrichello, ou melhor, Rubinho, que desde o início da sua carreira na Ferrari, (em 2000) foi alvo das piadas mais sem graça e ridículas por uma parte do público de seu próprio país.

Para começar, basta lembrar que Barrichello foi pentacampeão brasileiro de kart na década de 80 (e campeão sulamericano em 1987), tendo iniciado no automobilismo em 1989, com a estreia na Fórmula Ford brasileira (naquele ano, obteve 01 vitória, 01 pole position, 01 volta mais rápida e 05 pódios*, terminando o campeonato em 3º lugar). Essa estreia teve uma particularidade, contada no site do apresentador, jornalista e comentarista Milton Neves:


A estreia de Barrichello nesta categoria foi marcada por um episódio interessante e de muita sorte. Sem dinheiro para comprar um carro novo para a temporada, a família adquiriu um modelo usado, pouco competitivo, como ficou evidente nos primeiros treinos antes do campeonato começar.

Mas na primeira prova, na hora de desembarcar o carro do caminhão, seu Fórmula Ford caiu e ficou destruído. Com isso, a transportadora acabou comprando um carro novo, zero quilômetro para o piloto, que estreou com vitória e terminou o campeonato em terceiro lugar.


Já na temporada seguinte, estreou na Fórmula Opel no velho continente, sendo campeão com 06 vitórias, 07 poles, 07 voltas mais rápidas e 07 pódios*. Em 1991, mais um título, desta feita na Fórmula 3 Britânica, a categoria de acesso à Fórmula 1 mais disputada até então. Na campanha de 04 vitórias, 09 poles, 07 voltas mais rápidas e 07 pódios*, Barrichello disputou corridas com nomes do porte de Gil de Ferran e David Coulthard.

A temporada de 1992 foi disputada na então Fórmula 3000 (posteriormente denominada GP2 e atualmente Fórmula 2), tendo obtido 04 pódios* e 02 voltas mais rápidas, culminando no 3º lugar ao final do campeonato. Esses predicados fizeram com que a sua estreia na Fórmula 1 ocorresse na temporada de 1993, através da equipe Jordan, e sua história na categoria máxima, tão bem abordada em publicações de maior renome, tem o seguinte resumo:

- 326 corridas, sendo 322 largadas;

- 11 vitórias (01 hat trick, na Itália, em 2004);

- 14 pole positions;

- 17 voltas mais rápidas;

- 57 pódios*

- 02 vice-campeonatos (2002 e 2004) e 02 terceiros lugares (2001 e 2009);

- 06 equipes (Jordan, Stewart, Ferrari, Honda, Brawn GP e Williams);

- 19 temporadas ininterruptas na Fórmula 1 (recorde vigente até o presente momento)

Cabe abrir alguns parênteses quanto às seguintes temporadas:

- Em 1995, Barrichello teve a oportunidade de correr pela Benetton (então campeã de pilotos com Michael Schumacher), tendo declinado da oferta por consideração a Eddie Jordan (que não teve a mínima ao dispensá-lo alguns anos depois);

- Em 2003, foi o maior responsável pelo desenvolvimento da Ferrari que deu o hexacampeonato a Schumacher;

- Em 2010 teve a chance de assinar com a McLaren e ser companheiro de equipe de Lewis Hamilton. Porém, manteve a palavra com a Williams, pois já tinha firmado contrato com a equipe. Cabe lembrar que a vaga fora ocupada por Jenson Button, que por sua vez, venceu 01 prova em 2010 e 04 no ano seguinte.

Após a Fórmula 1 (término da temporada de 2011), Barrichello fez a temporada de 2012 completa na Fórmula Indy pela equipe KV Racing, sendo o melhor estreante nas 500 Milhas daquele ano (com o 11º lugar, à frente dos futuros campeões Josef Newgarden e Simon Pagenaud) e não fazendo qualquer performance vexatória. E no fim daquele ano, sua história na Stock Car começou, ao disputar as 03 últimas provas (sem contar pontos para o campeonato) no Peugeot 408 da Medley Full Time.

Na Stock Car, até o presente momento, são 02 títulos, 01 vice-campeonato (2016) e a marca de nunca ter terminado um campeonato abaixo da 10ª posição (tendo terminado o primeiro deles na 8ª posição, e sendo eleito o melhor estreante). Além disso, são 19 vitórias (02 delas na corrida do milhão, em 2014 e 2018), 12 poles, 30 pódios, 11 melhores voltas e 03 (hat tricks), bem como é um dos únicos pilotos - o outro é Ricardo Maurício - a vencer as 02 corridas de um final de semana. E tudo isso com 50 anos!

Então fica a pergunta: Por que ridicularizar um piloto tão vitorioso? Por que chamar de lento um cara que sempre se manteve competitivo, por onde passou e quando o equipamento lhe permitiu?

Lembro que a partir da sua estreia na Ferrari, um certo programa humorístico de televisão passou a fazer paródias de sua performance no mundial de F1, paródias essas de gosto no mínimo duvidoso. Rubinho era alvo de piadas por terminar as corridas, na maior parte delas, atrás do alemão Michael Schumacher. Mas quem entende minimamente de automobilismo, sabe que a Ferrari tinha a sua atenção quase totalmente voltada para o heptacampeão, que em 1996 (então bicampeão pela Benetton), chegou a Maranello com a missão de reconstruir uma casa (que é movida pela paixão característica dos torcedores italianos) que desde os anos 80 não fazia temporadas sólidas (não vencia o mundial de pilotos desde 1979, e neste interím, venceu o mundial de construtores apenas em 1982 e 1983).

O ambiente na equipe italiana, àquela época, era praticamente voltado para Michael e para a sua conquista no mundial de pilotos, e não seria ninguém, muito menos um piloto não-italiano, que iria interferir naquela relação. Além do mais, com exceção das temporadas de 2002 e 2004, quando a Ferrari foi dominante (Schumacher campeão antecipado e Rubinho vice), de 2000 a 2005 a Fórmula 1 teve pilotos e equipes em temporadas de intensa disputa, como Mika Hakkinen e Kimi Raikkonen na McLaren, e Juan Pablo Montoya na Williams. Ou seja, Barrichello pode ter andado atrás do alemão, que era um incontestável gênio das pistas, mas jamais foi um piloto do meio do grid.

Muitas vezes penso que a educação e o cavalheirismo de Rubens poderia ter dado lugar a alguns belos palavrões e declarações ácidas, no melhor estilo Nelson Piquet. Assim, boa parte da mídia (aquela parte da imprensa que é mestre em enterrar as pessoas vivas...) teria tido um pouco mais de respeito com o piloto. Mas, sendo impossível voltar no tempo, que ao menos venha o reconhecimento por tudo que Rubens fez (e faz) pelo automobilismo brasileiro.

Minha admiração, Rubens Barrichello.

* Para esta matéria, a contagem dos pódios excluiu as vitórias, pois essas foram contadas em separado.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Os "cancelamentos" do automobilismo brasileiro em 2022

Caros amigos leitores! Depois de mais um afastamento temporário das atividades deste blog (dessa vez recebi a notícia de que serei pai, pela primeira vez!), volto à labuta com a promessa de não mais deixar um hiato desses nos afastar. E no retorno, trago para vocês uma breve reflexão acerca de dois acontecimentos relevantes nas decisões da Copa Truck e da Stock Car em 2022.

O termo cancelamento tem sido bastante usual no nosso cotidiano, principalmente no meio de comunicação através do qual estamos conversando neste momento. No tribunal da internet, não é raro pessoas serem julgadas sumariamente por atos, palavras, etc., colhidos em determinados momentos que não refletem a conduta usual dos sujeitos envolvidos (embora isso tenha suas exceções, é evidente).

Em 2022, posso destacar dois episódios que refletiram esse paradigma no automobilismo brasileiro, e que impuseram consequências de grande proporção para os pilotos Beto Monteiro e Gabriel Casagrande, em específico.

Na segunda corrida da 9ª etapa, disputada no início de novembro de 2022, no autódromo internacional de Goiânia, Beto Monteiro se envolveu em um entrevero com Roberval Andrade na curva 2, enquanto disputavam a 5ª posição. Na repetição das imagens do acidente, após uma análise mais fria e técnica do que aconteceu, é possível ver que o caminhão VW nº 88 (Beto Monteiro) derrapa na curva e toca na traseira do caminhão Mercedes Benz nº 15 (Roberval Andrade), o que a princípio poderia ser considerado um acidente de corrida, tendo em vista que ambos terminaram escapando do traçado.

Porém, o desenrolar dos fatos trouxe um impacto ainda maior ao ocorrido, pois o caminhão Mercedes Benz nº 72 do piloto Djalma Fogaça atingiu o lado esquerdo da traseira do caminhão do Roberval, quando vinha de motor cheio. Podemos dizer que essa batida que causou um acidente de grandes proporções visuais (graças a Deus!), pois apesar dos ferimentos causados ao piloto (Djalma terminou com alguns hematomas e a clavícula quebrada), os prejuízos foram restritos às perdas materiais.

Diante deste cenário, a direção de prova, sabiamente, optou pela interrupção da corrida, tendo os pilotos alinhado no grid novamente. Neste interím, após o abandono de Roberval Andrade (e sua despedida da luta pelo título), os comissários de prova decidiram pela exclusão de Beto Monteiro da corrida. Tal decisão, a nosso ver, mostrou-se precipitada e desproprocional ao que ocorreu, pois na necessidade de tomar uma medida punitiva imediata, cometeu-se mais um ato que alterou a dinâmica pela disputa do título (sem que com isso tenhamos a intenção de diminuir a conquista do campeoníssimo Welington Cirino).

É certo que o toque havido entre Monteiro e Roberval teve consequências graves para o piloto Djalma Fogaça, que nada tinha a ver com o que aconteceu entre os dois primeiros à sua frente. Aliás, o fato não poderia nem deveria passar ileso à disciplina dos comissários, servindo também como advertência para evitar problemas maiores no decorrer de uma prova decisiva para o campeonato. Um time penalty de 10 segundos, um acréscimo de tempo no resultado final, por certo cumpriria tal função.

Porém, decidir pela exclusão de um piloto que brigava pelo título, ainda enquanto os caminhões estavam parados no grid, não se mostra razoável, considerando que existem diversos profissionais atingidos por essa decisão, e não só o piloto. Ao que pareceu, o monstruoso acidente que envolveu Djalma Fogaça foi um catalisador para essa decisão, como uma imposição para uma resposta rápida e eficaz.

Digo ainda, que a maior reparação neste caso teria um fundo moral, pois sabedores das dificuldades enfrentadas pela equipe DF Motorsport, os pilotos envolvidos poderiam ao menos ajudar na reparação dos prejuízos auferidos pelo grande Fogaça.

Algo semelhante aconteceu com o piloto Gabriel Casagrande, na segunda corrida da 12ª e última etapa da temporada 2022 da Stock Car, disputada no dia 11 de dezembro em Interlagos/SP. Na ocasião, após a largada da corrida, Rubens Barrichello, Daniel Serra e Gabriel Casagrande chegaram lado a lado na segunda perna do S do Senna, em um espaço obviamente insuficiente para três carros. Barrichello foi o primeiro a rodar, ao frear para não bater em Daniel, sendo colhido na lateral traseira esquerda por outro competidor, enquanto Casagrande derrapou para o lado de fora da curva, tendo voltado logo em seguida para o traçado.

O problema é que Daniel estava justamente ao seu lado direito, logo depois da zebra, de forma que o contato entre ambos foi inevitável, culminando na rodada e quebra da suspensão traseira de Daniel. Não muito depois, veio a punição: Exclusão de Casagrande da corrida.

Novamente, vemos uma batida de corrida, causada por disputas mais acirradas (condizentes com uma decisão de campeonato) e sem qualquer intenção deliberada de alijar o concorrente da corrida. Quem conhece um pouco de pilotagem de carro de turismo, sabe que um bólido em desequilíbrio, que na volta à pista passa por cima da zebra, não proporciona ao piloto o controle adequado da direção, considerando também o pouco espaço para manobra, além dos diversos outros carros ao redor.

Então fica a indagação: Qual a necessidade de se proferir decisões tão drásticas, de forma tão sumária, sob o risco de cometer uma desproporcionalidade? Se o objetivo é garantir o resultado do campeonato dentro da pista, evitando o chamado "tapetão" (uma competição definida judicialmente nem sempre desvirtua o espírito desportivo. Muitas vezes somente o reforça), decisões como essas vão de encontro com tal diretriz. E para ser sincero, é muito melhor uma decisão judicial desportiva equânime, ainda que proferida posteriormente ao encerramento da competição, do que uma desproporção dada "na lata".

Será que precisamos levar para dentro das pistas aquela necessidade manifestada pela sociedade, de uma resposta rápida e repressiva aos erros cometidos? Aquela "celeridade" que muitas vezes culminam em erros irreparáveis? Acredito que não. Disputa se resolve na pista, e quando isso não é possível, é melhor esfriar a cabeça e pensar melhor no que se fazer, sob pena de interferir em algo que não pode ser repetido ou refeito.

Na próxima postagem, falaremos sobre uma injustiça cometida por um humor muito popular na década de 90, que interferiu negativamente na carreira de um dos maiores pilotos da história de nosso automobilismo: Rubens Barrichello.