O que antes parecia um sonho, um desejo distante, se tornou realidade. O Estado de Alagoas, que passou mais de 20 anos sem sediar uma só prova de arrancada, teve o privilégio de contar com dois participantes de alto nível (na verdade, não tem ninguém "bobo" lá) na 16ª edição do Armageddon, o maior evento de arrancada "no prep" (pista sem tratamento de aderência) da América Latina.
A etapa ocorreu nos dias 30 e 31 de outubro, mas essa história começou muito antes, especialmente para três pessoas diretamente envolvidas nesse projeto. Falo dos pilotos Caio Milito e Miguel Orsolete Neto, e do administrador da Lista 82, o também piloto Tino Veiga, com quem tivemos a oportunidade de conversar em três oportunidades antes da viagem rumo ao Velopark (Nova Santa Rita/RS). E fizemos isso com o apoio das filmagens de Danilo Marculino e da equipe A&M Performance e claro, do meu irmão Rodrigo Carelli, que editou e publicou os vídeos das entrevistas no canal Entusiastas sobre Rodas, no Youtube.
Como ainda não tivemos a oportunidade de conversar com eles após o encerramento do Armageddon, quando estão teremos a oportunidade de saber mais detalhes da viagem até o Rio Grande de Sul (cada piloto foi com sua equipe de carro, levando os bólidos nas carretinhas) e do evento em si, nossa matéria ficará restrita à fase de preparação para a competição. E começaremos falando sobre o piloto Caio Milito.
Numa tarde de sexta-feira, Milito nos recebeu (Tino e esse que vos escreve) em seu centro automotivo, o Milito Automotive, situado na Avenida Menino Marcelo, nº 22, Antares, aqui na capital alagoana. Depois de nos mostrar as instalações do seu empreendimento, gravamos um bate-papo com ele na oficina, ao lado da usina de força adequadamente chama de Gol Fireblade, tamanha a cavalaria que esse força livre dianteira possui.
O piloto nos contou que a iniciativa do projeto Lista 82 teve como início a falta de pistas adequadas aqui no Nordeste, para que os pilotos pudessem competir em alto nível e fazer frente aos competidores das demais regiões do Brasil. Mesmo participando de eventos no Estado de São Paulo, pois seu carro é preparado pela Space Tech, Milito não podia competir no Armageddon por ter domicílio em outro Estado.
Mas com a colaboração de pilotos de outros Estados da região, sobretudo de Sergipe, a Lista 82 foi finalmente homologada na terceira etapa de 2026, disputada no mês de setembro na pista do Circuito M3, situado na cidade de Pilar. E já que a modéstia do Tino não deixa que ele nos dê alguns detalhes, Milito nos contou que sua escolha como administrador se deu por inúmeros pedidos dos próprios pilotos, diante da personalidade e caráter que são notórios do nosso querido administrador.
Especificamente sobre o Gol Fireblade, trata-se de uma carroceria de Volkswagen Gol G4, que da estrutura original conserva apenas alguns pontos, dentre eles o teto e as longarinas das portas. A frente foi inteiramente removida, e o que antes víamos como capô em metal, parachoque dianteiro, para-lamas e grade com faróis, deu lugar a uma peça única em fibra, visando ao alívio de peso e facilidade na troca de peças. Não precisa nem lembrar que as caixas de rodas foram logo removidas para que o par de pneus slick Mickey Thompson fosse acomodado, pois sem a área de contato e o grip que eles proporcionam, seria impossível transferir toda a potência para o chão.
Em desenvolvimento desde o ano de 2021, o Fireblade é movido por um motor com cabeçote 16 válvulas e bloco Billet (em alumínio, usinado a partir de uma peça maçiça), com potência estimada em mais de 1.000 cavalos. O combustível utilizado é uma mistura de nitrometano, aliado aos coletores e bicos injetores feitos sob medida. Em termos de tempo de pista, trata-se do carro "no prep" mais rápido do Norte-Nordeste (tempo de 5s664, obtido na Paraíba), além de recordista na Spid Cup (Itatiba/SP) com o tempo de 5s013 na categoria 5 segundos, desde 2025.
Voltando um pouco no tempo, Milito lembrou do seu início na arrancada, na época das provas realizadas no Aeroclube de Maceió (cuja história já contamos aqui no blog, acesse através do menu do lado direito), em que correu com um Volksvagen Passat adquirido de outro competidor, o Salsicha. Este Passat foi posteriormente vendido e passou por várias mãos, época em que Milito ficou afastado do esporte por questões pessoais e profissionais. Porém, como o que está escrito ninguém apaga, o carro voltou para as mãos do piloto, que retornou às competições de arrancada por meio das provas realizadas no Autódromo Internacional da Paraíba. E a partir disso, foi só evolução, passando por um Gol GTS e pelo Gol G4 vermelho ainda de lata, que veio a se tornar o Fireblade.
Na semana seguinte, numa verdadeira correria contra o tempo (a equipe já estava ajustando a carretinha para pegar a estrada com o bólido), fomos recebidos por Miguel Neto na A&M Performance, a "meca" dos carros com preparação em alto nível aqui em Alagoas. Situada na Avenida Walter Ananias, nº 915, Jaraguá, a preparadora tem se destacado no cenário automotivo tanto em carros de rua como de pista, contando com a experiência do "mago dos teclados" Alcindor Menezes Jr. Fazendo o papel de fofoqueiro, digo a vocês que lá parecia uma verdadeira Disney, com Mitsubishi Lancer Evolution semi-pista, Lancer Sportback Ralliart, Dodge Dakota e Volkswagen Fusca 2.1.
Depois de nos mostrar as instalações da oficina, Miguel bateu um papo comigo e Tino na calçada da A&M, tendo ao nosso lado o seu Volkswagen Gol G4 Rallye 4x4, que já estava devidamente amarrado na carretinha com destino ao Rio Grande do Sul. O piloto nos contou que seu começo nas provas de arrancada ocorreu por volta de 2006, época em que seu pai, sr. Miguel Filho, disputava provas em Pernambuco (em Recife e Caruaru) com um VW Fusca turbo branco (preservado pela família até hoje), sobre o qual já falamos aqui no blog, na retrospectiva sobre a arrancada em Alagoas.
Nessa ocasião, Miguel competiu com o mesmo carro na categoria Desafio, enquanto o pai disputou a Street Turbo Tração Traseira. A experiência falou mais alto que a juventude, pois seu pai terminou vencendo a prova. Esse carro ainda foi utilizado por Miguel Neto em outras provas, sendo posteriormente substituído por outro VW Fusca, o conhecido "durepox", uma alusão a uma cola em massa de cor cinza, que era ingrediente obrigatório nas lasanhas até algum tempo atrás. Só que antes de chegar no VW Gol G4, Miguel ainda disputou provas com um Fusca Força Livre que pertenceu ao piloto Fábio Alarcon (piloto paulista com muita história na arrancada), com o qual chegou no Top 32 do Armageddon em 2022.
Um pouco dessa experiência pessoal nos foi passada por Miguel nessa conversa, em que destacou a preparação do carro e da estrutura de box, o reflexo do piloto na hora da largada e seu alinhamento com o carro e o preparador, como fatores decisivos para a conquista de uma boa performance no certame. Um outro ponto destacado foi a importância do esforço de cada participante em estar no Armageddon, como no caso dos alagoanos, que enfrentaram milhares de quilômetros de estrada para chegarem até o Velopark, não sendo exagero dizer que só de alinhar na primeira rodada, o piloto e equipe já são vencedores.
Falando sobre o seu carro, trata-se de um Volkswagen Gol G4 Rallye 4x4 adquirido em São Paulo/SP, em cuja primeira prova disputada ainda contava com a motorização de rua preparada. Essa mecânica foi logo trocada por um conjunto que Miguel já possuía, com cabeçote 8 válvulas unilateral preparado pela tradicional e vencedora Stumpf, montado sob um bloco AP 2.0 baixo (contando com a circulação de água para refrigeração). O virabrequim e pistões/bielas são forjados, podendo suportar cerca de 1000 cavalos de protência. Movimentando tudo isso tem-se uma"pequena" turbina .73/.75, que suporta até 1.200 cv, enquanto a alimentação fica por conta de uma Fueltech FT 500. Entre a terceira etapa da Lista 82 e o Armageddon, o carro sofreu mudanças apenas no setup de pneus e rodas, pois o conjunto com 215 de largura deu lugar a outro com 260 mm.
Um momento de emoção na nossa conversa foi sobre a puxada em que Miguel registrou o seu recorde pessoal. Na terceira rodada da lista, disputada no mês de setembro, Miguel partiu com o pé direito "no assoalho" do carro, fazendo com que a criança "dançasse" na reta sob o seu controle. A pressão dessa puxada foi tão grande, que antes da marca dos 201 metros (pouco depois dos 100 metros), a porta esquerda do carro simplesmente "voou" do carro, batendo na barreira de pneus lateral. E para quem pensou que isso seria o fim, a porta foi resgatada pela equipe, recolocada no lugar com algumas "tatuagens" (amassados e arranhões) e o carro voltou para pista, não sem antes serem feitas aberturas no vidro traseiro (de policarbonato) para dar mais vazão ao ar "cortado" pelo Gol. Moral da história: Miguel Neto quebrou seu recorde pessoal, com o tempo de 6,083 segundos, e no desafio final, venceu Hudson Jr. (SE), se tornando o novo dono da Lista 082, para orgulho de sua família e da equipe, que vibraram nos boxes.
Sobre a viagem até o Velopark e a competição do Armageddon em si, vamos deixar para falar a respeito numa próxima publicação, pois mesmo tendo acompanhado à distância pelas redes sociais boa parte desse feito, somente após ouvir os pilotos e o administrador da Lista 82 é que teremos a real medida do quão grande foi esse momento. E claro, faremos tudo isso em parceria com o canal Entusiastas Sobre Rodas. Fiquem Ligados!






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