"Um espaço reservado para falar das lembranças, histórias e episódios dos mais de 60 anos de Mil Milhas Brasileiras. E de outras coisas mais!"

terça-feira, 24 de março de 2026

Protótipo Aldee/Berga nas Mil Milhas de 2026

Se tem um carro que pode ser considerado sócio desse blog, é o Aldee/Berga RTT dos pilotos Marco Scalamandré e Rodrigo Garcia. Já tivemos a oportunidade de contar a trajetória de vitórias desse bólido em mais de uma oportunidade (confiram no menu do lado direito da tela, no marcador protótipo), e a cada ano que passa, esse carro cria mais histórias que reforçam a sua aura de campeão.

A parte da história que vamos contar hoje é mais recente e muito especial. Trata-se especificamente sobre a participação do carro nas 1000 Milhas Brasileiras de 2026, que marcou o seu retorno após 25 anos da última participação nesta prova. Confesso que quando vi esse carro em Interlagos, fiquei muito feliz em saber que ele encararia mais uma maratona na madrugada do circuito paulistano. Só me culpo por não ter tido a oportunidade de ver o carro de mais perto e falar com a equipe nos boxes, pois estava tão atordoado com a experiência inédita que estava vivendo, que acabei deixando algumas coisas passarem.

Mas ainda bem que o Rodrigo Garcia, piloto e grande responsável pela restauração e manutenção do carro, chamou a minha atenção para essa participação, além de ter fornecido fotografias e as informações de prova que passo a relatar para vocês.

A pilotagem do carro ficou por conta do quarteto formado por Rodrigo Garcia, Marco Scalamandré, Waldir Carmona (tradicional piloto de motociclismo) e do estreante Paulo Lopes, contando com o reforço do chefe de equipe Maurício Machione, que estava de prontidão, caso precisasse assumir o volante. Nos treinos, o Aldee/Berga RTT registrou a 23ª posição, no grid formado por 64 carros. Só que essa vantagem logo evaporaria.

Após a largada com pista molhada, a equipe recebeu a ordem da direção de prova de entrar nos boxes. O motivo foi a luz intermitente de sinalização (semelhante a dos F1) que não apagava, e assim, a equipe teve que desligá-la. Só que cada entrada nos boxes representa a permanência mínima de quatro minutos, medidos entre os pontos de cronometragem situados na entrada e saída do pit lane. Resultado: O protótipo voltou à pista em último.

Como não há nada que não possa ficar mais complicado, após duas voltas, Marco Scalamandré entrou nos boxes novamente, desta feita com o parabrisa embaçado, engordurado e sujo. Feita a limpeza, Garcia acabou assumindo o volante do bólido, saindo dos boxes ainda mais em último. Cumpriu dois stints de 1h30min cada, parando apenas para reabastecimento e troca de pneus slick, e o ritmo seguro e forte, fez com que entregasse o carro a Waldir Carmona às 03h30min na 35º posição!

Carmona fez um stint de 1h45min aproximadamente, com ritmo constante, incluindo uma parada não programada para o reparo do suporte do alternador. Incansável, Rodrigo Garcia assumiu o carro novamente pouco após as cinco horas da manhã. E nesse stint, confessa que realizou o antigo sonho de pilotar durante o amanhecer, um momento que lhe proporcionou muita emoção. Só de lembrar do amanhecer no templo do automobilismo brasileiro, quem se emociona sou eu.

Já com o dia claro, a equipe aproveitou uma das muitas entradas do safety car na pista para realizar o reabastecimento, momento em que o estreante Paulo Lopes finalmente pôde sentir o gosto de disputar uma 1000 Milhas, pois até então, só tinha feito algumas provas isoladas. E Lopes mostrou que é do ramo, pois não cometeu nenhum erro durante o tempo em que permaneceu na pista - cerca de 1h40min -, mesmo com o carro já desgastado, além de ter conquistado algumas posições.

Como o safety car não teve tempo nem de esfriar o óleo do motor, durante mais uma entrada sua, o Aldee/Berga RTT foi para os boxes para reabastecimento e nova troca de pilotos, com Scalamandré voltando ao cockpit para cumprir dois stints. O piloto imprimiu ritmo rápido e constante, ganhando várias posições e registrando consecutivas voltas com tempo baixo, valendo-se do "filé" que estava o carro. A única observação era o discreto consumo de água e óleo.

Restando 1h15min de corrida, Scalamandré foi para os boxes para o último reabastecimento, e coube a Rodrigo Garcia a missão de levar o carro até a bandeirada final. O último stint foi seguro, com voltas mais tranquilas e constantes, visando o controle da temperatura e economia de combustível. E ao meio-dia, a bandeira quadriculada veio, acompanhada de lágrimas do piloto, numa genuína expressão que resume os sentimentos de concluir as 1000 Milhas: Alegria, cansaço, realização pessoal e o sabor do dever cumprido. Ao final, o tradicional protótipo chegou na 18ª posição na classificação geral, e em terceiro na categoria T1B. Mas com a desclassificação do Chevrolet Omega nº 18, subiu para a segunda posição. 

Como uma conquista desta natureza não é feita apenas por uma mão, o piloto não poupou reconhecimento e agradecimentos aos demais reponsáveis pela bela corrida do Aldee/Berga RTT, como a estrutura de boxe proporcionada pela equipe MI Motors Performance, chefiada por Maurício Machione, os mecânicos Ronaldo e Ceará, o estrategista Anderson de Carvalho, os parceiros Marcelo Dias, Luciane Klai e D'Fox. E claro, os parceiros de pilotagem Marco Scalamandré, Waldir Carmona e Paulo Lopes.

Mas além de toda a satisfação proporcionada por terminar a prova, esse momento teve também outro significado para Garcia, pois a atual edição igualmente marcou o seu retorno à prova, já que a última vez que tinha disputado as 1000 Milhas foi em 2006. Naquela oportunidade, dividiu o Chevrolet Omega Stock Car da Equipe Coruja Competições, formando quarteto com Roberto "Coruja" Amaral, Cássio Paoletti Júnior e Carlos Crespo de Carvalho. A corrida durou 113 voltas (Garcia só correu por 10), deixando o Omega nº 44 na 24ª posição do grid formado por 28 carros.

Então é isto, meus amigos. Agradeçemos ao Rodrigo Garcia pela oportunidade de registrar uma bela história, que envolve a prova mais tradicional do automobilismo brasileiro. Cada carro que alinha no grid tem toda uma realidade por trás disso, muitas vezes desconhecida do grande público, que muitas vezes envolve sacrifício, persistência, paixão pelo esporte e vontade de fazer o melhor, mesmo quando vencer não for possível. E é por essas e outras que o automobilismo se torna ainda mais apaixonante.


Troca para os pneus slick, após a secagem da pista

Paulo Lopes ao volante

Bandeirada final

Pódio da categoria

Primeiro stint de Rodrigo Garcia


Marco Scalamandré

3 comentários:

  1. Que relato emocionante Ricardo ,após tantos contratempos ainda lograram um excelente resultado. Parabéns a todos envolvidos, pilotos, equipe completa e ao bichinho este tal de Aldee!

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  2. Nos meus planos ainda uma 10000 Milhas num Aldee!

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  3. Se tivesse grana importaria uma réplica RCR do Porsche 962c dos EUA. Mas o Aldee é uma ótima opção

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