"Um espaço reservado para falar das lembranças, histórias e episódios dos mais de 60 anos de Mil Milhas Brasileiras. E de outras coisas mais!"
Mostrando postagens com marcador Mustang. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mustang. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Toropala: A primeira lenda da arrancada do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro, 1984. O Autódromo de Jacarepaguá fervilhava com as grandes disputas que ocorriam em seu traçado, re-inaugurado em 1977 (após grande reforma iniciada em meados de 1970). Nessa época, eram sediadas corridas da Stock Car Brasil, Brasileiro de Marcas e Pilotos, Hot Car, Fórmula Ford, entre outras, além, é claro, da Fórmula 1, nos anos de 1978 e de 1981 a 1989.

Mas para alguns "loucos por velocidade", isso não era o bastante, pois o circuito contava com uma enorme reta de 1.100 metros que era ideal para a disputa de uma modalidade praticamente desconhecida no Brasil, vinda dos Estados Unidos: A Arrancada, ou Drag Race. E falamos praticamente desconhecida porque, apesar de já terem ocorrido alguns eventos de exibição da modalidade no Brasil, até então não se tinha um campeonato unificado, com a homologação perante a CBA e, consequemente, junto às federações locais.

Era comum (e infelizmente isso perdurou por muito tempo, até o início dos anos 2000) as corridas de arrancada serem tratadas como simples e ilegais rachas de rua, o que fazia com que qualquer iniciativa no sentido de desenvolver e estruturar a modalidade, fosse vista com muita resistência.

Só que nesse cenário, tinha no Rio de Janeiro quem acompanhasse o que rolava nos EUA nas corridas do quarto de milha (402 metros) e se empolgasse em trazer essa novidade para o Brasil. E nesse pessoal, estavam o meu amigo Paulo Roberto Mello, que me possibilitou escrever essa história, e claro, o dono e piloto da lenda da qual vamos falar agora, Ignácio de Loyola Barros Damásio, mais conhecido como Loy.

Neste cenário, o Toropala (junção de Toronado, modelo da Oldsmobile, subsidiária da GM extinta em 2004, e Opala, clássico nacional conhecido por todos nós) representa o espírito da arrancada em sua mais pura acepção, que vem a ser elaborar as mais criativas soluções para percorrer a distância cronometrada cada vez mais rápido. A idéia teve como base um Chevrolet Opala (provavelmente na versão Comodoro) 4 portas ano 1977, que foi comprado por João Luiz Woerdenbag (o carro está registrado até hoje em seu nome), dono da célebre oficina Motorfix, que ficava no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. E para quem achou o seu nome familiar, sim, João Woerdenbag era pai do cantor Lobão, que tem o mesmo nome.

O carro foi adquirido pelo Loy por volta de 1984, com o objetivo de colocá-lo na pista, e em sua configuração inicial, tinha mecânica V8 do Ford Maverick, carroceria aliviada no peso, e laterais traseiras alargadas para acomodar a rodagem dupla no eixo traseiro, o que lhe dava uma cara "truckada". Além disso, foi incorporada a frente "quadrada" do Chevrolet Opala fabricado a partir de 1980, tudo montado com peças novas.

A partir de 1985, o Opala (que ainda não era Toropala) começou a disputar provas de arrancada em Jacarepaguá, sempre vencendo seus oponentes, fossem eles Opalas ou Mavericks. Mas o desempenho ainda não era o suficiente para Loy e a equipe da Motorfix. Foi então que surgiu uma ideia no mínimo inusitada: Trocar o V8 do Maverick pelo igualmente oito cilindros do... Oldsmobile Toronado!

Isso mesmo. O Opala recebeu o conjunto de força (powertrain) de um Toronado, que fora comprado batido em uma revenda de carros antigos chamada Velho Galpão, situada em um subúrbio carioca. O motor era um 455 (com 375 cv originalmente) acoplado ao câmbio automático TH 425, cuja força era transmitida ao chão por meio de sistema de tração dianteira. E para quem pensar que essas diferenças atrapalharam a montagem e o desenvolvimento do carro, para o mecânico que liderou o projeto, o norte-americano Alfred Norris, isso foi só um incentivo à mais à criatividade e habilidades mecânicas da equipe.

A parte dianteira do chassi do Toronado foi cortada na altura do parabrisa, e levou consigo além do motor e câmbio, o eixo e sistema de freios, sendo que todo esse conjunto foi soldado no monobloco do Opala. O agora Toropala passou a ter motor montado em posição central (onde antes ficavam o banco e a parede do porta-malas, que foi cortada), ficando posicionado na dianteira apenas o sistema de arrefecimento.

Na reta de Jacarepaguá o Toropala logo se tornou um titã, pois conforme nos conta o Loy, o carro não perdeu nenhuma puxada que fez lá no Rio de Janeiro. Praticamente um Rickson Gracie da arrancada, que contou, ainda, com o recorde não oficial dos 402 metros, com o tempo de 11s800. Para efeito de comparação, os Opalas e Mavericks mais rápidos não andavam abaixo de 13 segundos na época! As disputas eram divididas em três categorias, Stock, Super Stock e Modified, sendo que o Toropala corria nesta última.

Entre os oponentes vencidos, estavam carros famosos da época, como o Ford Mustang de Paulo Lomba, sobre o qual já falamos algumas vezes aqui, a respeito de suas participações em edições das Mil Milhas Brasileiras nos anos 90, além da Puma GTB V8 de Dimas de Melo Pimenta Filho. Um outro carro também vencido foi o Buggy com motor 2000 feito em Belo Horizonte (MG), movido a GLP (sim, gás de cozinha) e com óxido nitroso, que era tido como o bicho-papão da época.

Para termos uma idéia de como esse carro devorava a reta, o motor Oldsmobile funcionava de forma lisa, silenciosa, e as trocas de marcha eram feitas com 6000 rpm. O pulo na frente era dado nos primeiros cinco segundos, pois o Toropala sequer destracionava, e as duas primeiras marchas eram utilizadas antes do "tiro" de óxido nitroso de 50 cv ser dado. Mas esse recurso não foi muito utilizado, já que o movimento natural do aspirado era suficiente para fazer o carro andar na frente.

Ainda sobre o veneno do motor, a preparação continha recursos como cabeçotes com dutos polidos, pistões especiais para gerar mais compressão, ignição Mallory, distribuidor eletrônico, comando de válvulas Crower, de 296°, coletor de admissão feito em alumínio, da Edelbrock, tudo alimentado por um carburador Holley de 700 cfm, em cuja base era montada a injeção de óxido nitroso (na época era um sistema bem simples, diferentemente dos atuais em que cada "dose" de comburente é eletrônicamente calculada, com o efeito positivo de resfriar a câmara interna do cilindro). No final das contas, a potência fora elevada para cerca de 420 cv, nos tempos em que dinamômetro era algo inimaginável.

O Toropala teve pouco tempo de desenvolvimento, pois logo foi colocado na pista, o que nos permite dizer que a performance do carro poderia ter sido ainda maior, já que em meados de 1986, as provas de arrancada no Rio de Janeiro perderam força e deixaram de ser realizadas. Nesse tempo, o carro foi vendido para a cidade de Cambé (PR), onde permaneceu por um bom tempo. Mas como a luz no fim do túnel (ou neste caso, no fim da reta) existe, o Loy terminou por recomprá-lo há alguns anos na cidadede Maringá (PR), e atualmente, o carro permanece em sua coleção à espera do merecido restauro.

Então é isso, meus amigos, espero ter registrado esse capítulo da história de uma forma à altura do que representou esse carro na época, uma história que despertou minha curiosidade logo que o amigo Paulo Mello me contou a respeito. Aliás, graças a ele pude entrar em contato com o Loy, que teve muita atenção e solicitude em me dar os detalhes do carro e fotos, e assim, sem a ajuda dos dois, essa matéria não poderia ter sido escrita. Gratidão.















sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Retrospectiva Mil Milhas: 2022

Neste clima de expectativa que antecede a realização de mais uma edição das Mil Milhas Brasileiras (ontem já tivemos carros na pista e hoje à tarde teremos o treino classificatório), vamos à terceira parte dessa nossa retrospectiva da prova, cujo início ocorreu no ano de 2020, com a disputa da 39ª edição.

O grid formado por 34 carros teve como pole position o protótipo Sigma P1 Chevrolet V8, pilotado pelo trio formado por Beto Ribeiro, Jindra Kraucher e Aldo Piedade Jr. Na primeira volta cronometrada da sessão, o bólido registrou o tempo de 1min35s225, em que pese ter alcançado 1min31s nos treinos livres. Contudo, a marca foi mais que suficiente para superar o carro vencedor da prova em 2021 por 4s8, o protótipo MRX #73 da equipe de Leandro Totti.

A largada foi dada à meia-noite do dia 23 de janeiro de 2022, e o Sigma liderou quase toda a prova, perdendo a primeira posição apenas em algumas oportunidades nas primeiras horas de disputa. Tal performance teve como um dos fatores a confiabilidade do equipamento, visto que os únicos percalços foram na quinta hora de prova, quando teve a quebra de um parafuso da suspensão, e em seguida uma falha na bomba de combustível. Tais fatores foram suficientes para deixá-lo na terceira posição da classificação geral, forçando uma prova de recuperação. Porém, a liderança fora recuperada na volta 194, e não foi mais perdida. No mais, o trabalho nas paradas de box se resumiu aos procedimentos de praxe e à troca das pastilhas de freio, e ainda, chegou a marcar a melhor volta da prova, com 1min34s489 (média de 164,489 km/h).

Em segundo lugar ficou o estreante que sequer havia treinado até a largada. Trata-se do Porsche 718 Cayman GT4 #55 da tradicional equipe Stuttgart, que foi pilotado por Marcel Visconde, Ricardo Maurício e Alan Hellmeister, terminando 11 voltas atrás dos vencedores e vencendo na categoria, depois de escalar todo o grid (o Porsche chegou a ocupar a 4ª posição na geral ainda na 1ª hora de corrida).

Problemas maiores foram enfrentados pela equipe Absoluta Racing e seu protótipo ABS - 01, que teve uma quebra do motor principal antes do treino classificatório. Correndo com um motor reserva (com cerca de 100 cv a menos do que o motor titular, o que representou um acréscimo de cerca de 4 segundos por volta), passou por sucessivos problemas nos stints iniciais da prova (embreagem, ponta de eixo e cubo de roda), fazendo com que o time perdesse mais de 4 horas nos boxes. Porém, como mostra de profissionalismo e respeito ao público, o time de Ney Faustini retornou à pista e terminou a prova na 26ª posição, com 170 voltas e a vitória na classe P2.

Entre os destaques da edição, podemos citar:

- #6 Protótipo Fusca DIMEP – Dimas de Melo Pimenta ll / Dimas de Melo Pimenta lll / Rodrigo Dimas de Melo Pimenta / Alex Dimas de Melo Pimenta (DIMEP) - 17ª posição na geral, com 233 voltas.

- #32 Porsche 914 Tubarão – Paulo Sousa / Galid Osman / Tiel de Andrade (MC Tubarão) – este carro quebrou durante os treinos e não chegou a alinhar no grid

- #22 Ford Mustang GT4 – Flavio Abrunhoza / Cassio Homem de Mello / Andre Luis Ribeiro Martins de Moraes Junior / Gustavo Conde (AutLog Team) - 22ª posição na geral, com 178 voltas.

- #1 Fuspyder – Rodrigo Bonora / Jorge Selmer / Igor Taques / Franco Dauer / Franco Lucca / Mário Marcondes (Bonora Racing) - 15ª posição na geral, com 257 voltas.


O resultado completo da prova você confere aqui, no Blog do meu irmão Rodrigo Carelli.











quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Maverick, Opala e Mustang na Mil Milhas de 1992


Um belo flagra dos treinos da 21ª edição da Mil Milhas de 1992, desta feita um registro feito na saída da curva do laranjinha. Na foto, o Ford Maverick nº 16 da tradicional equipe Automotor (neste ano com Ney Faustini ao volante), sendo seguido pelo Opala Stock Car "carenado" de Roberto "Coruja" Amaral, pelo Chevrolet Opala inscrito com o nº 31 e por ultimo, pelo Ford Mustang nº 10 de Denísio Casarini/Fábio Greco. Infelizmente, nenhum desses bólidos terminou entre os 10 primeiros colocados, sendo que o Mustang largou na 3ª posição e chegou a liderar a prova.