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quarta-feira, 6 de maio de 2026

A tríplice coroa do endurance brasileiro (?)

Quando falamos do endurance internacional, logo nos remetemos às tradicionais provas das 12 Horas de Sebring, 24 Horas de Daytona e a maior de todas, as 24 Horas de Le Mans. São provas com décadas de tradição, com exceção de Le Mans, que já possui uma história centenária (disputada desde o ano de 1923, com exceção de 1936 e do período de 1940 - 1948, em virtude da greve dos trabalhadores durante a Grande Depressão, e da 2ª Guerra Mundial, respectivamente), cuja importância as coloca como as três maiores competições de longa duração do esporte a motor.

Por isso, os vencedores das três provas (na classificação geral) são considerados detentores da Tríplice Coroa do Endurance, título não oficial que atualmente é atribuído a 11 (onze) pilotos. São eles:

1. Hans Herrmann: Alemão, vencedor das 12 Horas de Sebring em 1960 e 1968, 24 Horas de Daytona em 1968 e das 24 Horas de Le Mans em 1970, quando se aposentou das pistas.

2. Jackie Oliver: Inglês, vencedor das 12 Horas de Sebring em 1969, 24 Horas de Daytona em 1971 e das 24 Horas de Le Mans em 1969.

3. Jacky Ickx: Belga, vencedor das 12 Horas de Sebring em 1969 e 1972, 24 Horas de Daytona em 1972 e das 24 Horas de Le Mans em 1969, 1975, 1976, 1977, 1981 e 1982.

4. Hurley Haywood: Norte-americano, vencedor das 12 Horas de Sebring em 1973 e 1981, 24 Horas de Daytona em 1973, 1975, 1977, 1979 e 1991) e das 24 Horas de Le Mans em 1977, 1983 e 1994.

5. A. J. Foyt: Norte-americano, vencedor das 12 Horas de Sebring em 1985, 24 Horas de Daytona em 1983 e 1985) e das 24 Horas de Le Mans em 1967.

6. Alvah "AL" Holbert: Norte-americano, vencedor das 12 Horas de Sebring em 1976 e 1981, 24 Horas de Daytona em 1986 e 1987) e das 24 Horas de Le Mans em 1983, 1986 e 1987.

7. Andy Wallace: Inglês, vencedor das 12 Horas de Sebring em 1992 e 1993, 24 Horas de Daytona em 1990, 1997 e 1999 e das 24 Horas de Le Mans em 1988.

8. Mauro Baldi: Italiano, vencedor das 12 Horas de Sebring em 1998, 24 Horas de Daytona em 1998 e das 24 Horas de Le Mans em 1994.

9. Marco Werner: Alemão, vencedor das 12 Horas de Sebring em 2003, 2005 e 2007, 24 Horas de Daytona em 1995 e das 24 Horas de Le Mans em 2005, 2006 e 2007.

10. Timo Bernhard: Alemão, vencedor das 12 Horas de Sebring em 2008, 24 Horas de Daytona em 2003 e das 24 Horas de Le Mans em 2010 e 2017.

11. Nick Tandy: Inglês, vencedor das 12 Horas de Sebring em 2018, 2019 e 2020, 24 Horas de Daytona em 2025 e das 24 Horas de Le Mans em 2015.

Como visto, infelizmente ainda não possuímos pilotos brasileiros nesta lista, embora tenhamos vários nomes com vitórias nas 12 Horas de Sebring e nas 24 Horas de Daytona, com destaque para Pipo Derani e Felipe Nasr, os quais possuem reais chances de obter a tão sonhada vitória na classificação geral das 24 Horas de Le Mans.

Mas e no endurance brasileiro? Temos uma tríplice coroa nas corridas de longa duração? A resposta infelizmente é não, visto que não há nos registros do esporte a motor a instituição, ainda que informal, dessa honraria. Porém, e se pudéssemos fazer um ranking dos vencedores das mais tradicionais provas do endurance nacional, com o objetivo de atribuir esse posto? É sobre este ponto que vamos falar agora.

Confesso a vocês que o aspecto mais difícil nesta missão é estabelecer, de forma equitativa, quais provas formariam a chamada tríplice coroa do endurance nacional. Isto porque, sem entrar no mérito de cada uma das provas disputadas no Brasil ao longo dos anos, muitas delas foram disputadas em um período de tempo limitado, ou sofreram com hiatos mais ou menos longos no decorrer da história.

Diante disso, e em virtude da ausência de disputas em um determinado período, pilotos que teriam chance de vencer algumas dessas provas ficaram impossibilitados de fazê-lo, o que por si só já dificulta estabelecer um critério mais justo e objetivo.

Entretanto, mesmo diante destes obstáculos, poderíamos citar como mais significativas as seguintes corridas:

1. 1000 Milhas Brasileiras: Disputada desde 1956, com algumas interrupções neste período (as maiores nos períodos de 1974 a 1980 e de 2009 a 2019), é a prova mais tradicional do automobilismo brasileiro, com 43 edições realizadas;

2. 500 Km de Interlagos/São Paulo: Disputada desde 1957, também com interrupções neste período (a maior entre 1983 e 1996), passou por alguns formatos ao longo dos anos (inicialmente era disputada apenas no anel externo de Interlagos). A partir de 1997, a corrida fora realizada no circuito completo, e entre 2014 e 2017, foi disputada no Autódromo Velo-Cittá, em Mogi Guaçu;

3. 25 Horas de Interlagos: Realizada apenas entre os anos de 1973 e 1975;

4. 24 Horas de Interlagos: Disputada nos anos de 1960, 1961, 1966 e 1970;

5. 12 Horas de Tarumã/Porto Alegre: Disputada desde 1962, com algumas interrupções neste período (a maior entre os anos de 1977 a 1983). As três primeiras edições (1962, 1963 e 1968) foram realizadas em circuito de rua na capital gaúcha, enquanto que nos anos de 1984, 1992 e 2022, o autódromo de Guaporé sediou a corrida;

6. 1000 km de Brasília: Disputada pela primeira vez em 1962, inicialmente nas ruas da recém-inaugurada capital do Brasil, sendo que a partir de 1974, foi realizada no Autódromo Internacional de Brasília/Nelson Piquet. A prova teve várias interrupções, enquanto que a última edição foi realizada no ano de 2005, totalizando 22 (vinte e duas) edições.

Diante desta subjetividade, estabelecemos que o mais próximo de um critério objetivo e equânime (muito longe de ser a útima palavra sobre o assunto), seria considerar nesta lista apenas pilotos que venceram pelo menos três das corridas listadas acima, sobretudo em circuitos diferentes. Apesar de termos deixados grandes nomes de fora da relação (pois não se enquadravam nesse critério), é certo que vencer pelo menos uma edição das maiores provas de longa duração de nosso automobilismo, não é um feito fácil de se obter.

E nossa apuração ficou da seguinte forma:

1. Paulo de Mello Gomes

- 1000 km de Brasília de 1974 (Ford Maverick, com Antônio Castro Prado), 1976 (Ford Maverick, com Bob Sharp), 1980 e 1981 (ambas em um Chevrolet Opala Stock Car, com João Carlos "Capeta" Palhares).

- 12 Horas de Tarumã de 1975 (Ford Maverick Divisão 1 nº 22, com José Carlos Pace)

- 25 Horas de Interlagos de 1975 (Ford Maverick Divisão 1 nº 22, com José Carlos Pace e Bob Sharp).

- 500 km de Interlagos de 2003 (Mercedes Benz CLK DTM nº 25, em trio com Pedro Gomes e Alcides Diniz).

- 1000 Milhas Brasileiras de 1985 (Chevrolet Opala Stock Car nº 12, em dupla com Fábio Sotto Mayor).


1000 km DF - 1981



1000 km DF - 1980


500 km de Interlagos - 2003


1000 Milhas Brasileiras - 1985



2. Wilson Fittipaldi Júnior

- 1000 km de Brasília de 1967 (Karmann Ghia Porsche 2.0, com José Carlos Pace).

- 12 Horas de Porto Alegre de 1968 (Volkswagen Fusca nº 7, com Emerson Fittipaldi).

- 25 Horas de Interlagos de 1974 (Chevrolet Opala nº 9, com Ingo Hoffmann e Reinaldo Campello).

- 1000 Milhas Brasileiras de 1994 (Porsche 911 RSR GT Le Mans n° 7 com Christian Fittipaldi) e de 1995 (Porsche 993 nº 1 em trio com Antonio Hermann e Franz Konrad).


1.000 km de Brasília 1967 - os três Karmann Ghia Porsche da Equipe Dacon chegando nas três primeiras posições. Os carros eram pilotados por: Rodolpho Olival Costa e Lian Duarte (n.12); Emerson Fittipaldi e Francisco Lameirão (n.7); e por Wilson Fittipaldi e José Carlos Pace (n. 77)

12 Horas de Porto Alegre - 1968

25 Horas de Interlagos - 1974 


1000 Milhas Brasileiras - 1995 (Foto: Zé Carlinhos)


1000 Milhas Brasileiras - 1994

3. Bird e Nilson Clemente

- 24 Horas de Interlagos de 1970 (Chevrolet Opala nº 80).

- 25 Horas de Interlagos de 1973 (Ford Maverick Divisão 3 nº 20, em trio com Clóvis de Moraes).

- 500 km de Interlagos de 1973 (Ford Maverick Divisão 3 nº 20).

- 1000 Milhas Brasileiras de 1973 (Ford Maverick Divisão 3 nº 20).


500 km de Interlagos - 1973

Pódio dos 500 km de Interlagos - 1973


24 Horas de Interlagos - 1970


1000 Milhas Brasileiras - 1973


24 Horas de Interlagos - 1970

4. Xandy Negrão

- 1000 km de Brasília de 1984 (Volkswagen Voyage nº 70, em dupla com Jayme Figueiredo), 2003 (Porsche 911 GT3 nº 21, com Luiz Paternostro e Paulo Bonifácio) e 2004 (Audi TT-R nº 9, com Guto Negrão e Xandynho Negrão).

- 500 km de Interlagos de 2004 (Audi TT-R nº 9, com Guto Negrão).

- 1000 Milhas Brasileiras de 2003 (Porsche 911 GT3 nº 9, com Ingo Hoffmann, Fernando Nabuco e Ricardo Etchenique) e 2005 (Audi TT-R nº 9, com Guto Negrão, Xandynho Negrão e Giuliano Losacco).


1000 km DF - 2004


1000 km DF - 2003


1000 Milhas Brasileiras - 2005


1000 Milhas Brasileiras - 2003


1000 km DF - 1984


5. Luiz Pereira Bueno

- 1000 km de Brasília de 1968 (Interlagos Bino Mark II, em dupla com José Carlos Pace).

- 500 km de Interlagos de 1966 (Alpine A110 1.3), 1970 (Interlagos Bino Mark II nº 47) e 1971 (Porsche 908/2 3.0, com Luiz Lian Duarte).

- 1000 Milhas Brasileiras de 1967 (Interlagos Bino Mark I nº 21, em dupla com Luiz Fernando Terra Smith).


1000 km DF - 1968
(Foto gentilmente cedida por Rodrigo Carelli)


Mil Milhas Brasileiras - 1967


500 km de Interlagos - 1970 (foto: Blog do Saloma)


6. José Carlos Pace

- 1000 km de Brasília de 1967 (Karmann Ghia Porsche 2.0, com Wilson Fittipaldi Júnior), 1968 (Interlagos Bino Mark II, em dupla com Luiz Pereira Bueno) e de 1969 (Alfa Romeo GTA 2000, com Marivaldo Fernandes)

- 12 Horas de Tarumã de 1975 (Ford Maverick Divisão 3 nº 22, com Paulo Gomes. Foi a última vitória de Moco).

- 25 Horas de Interlagos de 1975 (Ford Maverick Divisão 3 nº 22, com Paulo Gomes e Bob Sharp).

7. Guto Negrão

- 1000 km de Brasília de 2004 (Audi TT-R nº 9, com Xandy Negrão e Xandynho Negrão).

- 500 km de Interlagos de 2004 (Audi TT-R nº 9, com Xandy Negrão).

- 1000 Milhas Brasileiras de 2005 (Audi TT-R nº 9, com Xandy Negrão, Xandynho Negrão e Giuliano Losacco).

8. Xandynho Negrão

- 1000 km de Brasília de 2004 (Audi TT-R nº 9, com Guto Negrão e Xandy Negrão).

- 1000 Milhas Brasileiras de 2005 (Audi TT-R nº 9, com Guto Negrão, Xandy Negrão e Giuliano Losacco).

- 12 Horas de Tarumã de 2003 (Protótipo MCR Volkswagen, com Luiz Paternostro, Giuliano Losacco e Juliano Moro).

9. Ingo Hoffmann

- 25 Horas de Interlagos de 1974 (Chevrolet Opala nº 9, com Wilson Fittipaldi Júnior e Reinaldo Campello).

- 500 km de São Paulo de 2015 (Mitsubishi Lancer, com Guilherme Spinelli e Leandro de Almeida).

- 1000 Milhas Brasileiras de 2003 (Porsche 911 GT3 nº 9, com Xandy Negrão, Fernando Nabuco e Ricardo Etchenique).


500 km de São Paulo - 2015

10. Henrique Assunção

- 12 Horas de Tarumã de 2016 (Protótipo MCR GrandAm Lamborghini V10, com Fernando Fortes, Fernando Poeta, Pedro Queirolo, Anderson Toso e Marcelo Santana).

- 500 km de São Paulo de 2016 (Protótipo MRX, com Emílio Padron e Fernando Fortes).

- 1000 Milhas Brasileiras de 2023 (Protótipo AJR Ford nº 175, com Emilio Padron, Fernando Ohashi e Fernando Fortes) e 2025 (Protótipo AJR Ford nº 75, com Cristian Rocha, Pietro Rimbano e Cassiano Trem).


12 Horas de Tarumã - 2016


500 km de São Paulo - 2016


1000 Milhas Brasileiras - 2023

11. Fernando Fortes

- 12 Horas de Tarumã de 2016 (Protótipo MCR GrandAm Lamborghini V10, com Henrique Assunção, Fernando Poeta, Pedro Queirolo, Anderson Toso e Marcelo Santana).

- 500 km de São Paulo de 2016 (Protótipo MRX, com Henrique Assunção e Emílio Padron).

- 1000 Milhas Brasileiras de 2023 (Protótipo AJR Ford nº 175, com Emilio Padron, Fernando Ohashi e Henrique Assunção).


Diante dos dados indicados acima, podemos concluir que Paulão Gomes, tetracampeão da Stock Car e vencedor em outras categorias nacionais, é o piloto brasileiro mais vitorioso quando falamos nas mais tradicionais corridas de longa duração em nosso país. Para além disso, cabe fazer uma menção honrosa ao segundo lugar na classe e sétimo na classificação geral obtidos por Paulão nas 24 Horas de Le Mans de 1978, quando formou trio com Mário Amaral e Alfredo Guaraná Menezes, em um Porsche 935-77, movido pelo motor 3.0 L F6 turbo.

Porém, é indispensável lembrar que a melhor colocação de um brasileiro nas 24 Horas de Le Mans até o presente momento, foram os segundos lugares na classificação geral conquistados pelo saudoso José Carlos Pace em 1973, quando dividiu a tocada da Ferrari 312 PB-73 nº16 com o italiano Arturo Mezario, da equipe oficial da marca italiana, e por Lucas di Grassi em 2014, ano em que correu no Audi R18 e-tron quattro nº 1 (motor v6 4.0 turbodiesel) da equipe Audi Sport Team Joest. Os demais integrantes do time foram nada mais nada menos que Tom Kristensen e Marc Gené.

Então é isso, meus amigos. Ao grande Paulo Gomes e aos igualmente grandes pilotos dos quais falamos, nossas homenagens por suas inesquecíveis conquistas!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Mil Milhas 70 anos - Credenciais, flâmulas e cartazes

No primeiro dia do ano, o nosso passeio sobre a história das Mil Milhas Brasileiras será feito de uma forma diferente. Vamos relembrar algumas edições da prova através de credenciais, flâmulas e cartazes de divulgação dessa senhora de quase 70 anos de idade.





















quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Raul Boesel e as Mil Milhas Brasileiras

No último dia 04, o curitibano Raul Guilherme de Mesquita Boesel, ou simplesmente Raul Boesel, completou 66 anos de vida, da qual mais da metade fora dedicada ao esporte a motor. Da carreira no automobilismo, Boesel tem a autoridade de dizer que fora um vencedor, ainda que não tenha colecionado muitos títulos (mas todos os que conseguiu foram marcantes e únicos), pois, conforme nos ensina sabiamente Alex Dias Ribeiro, você pode ser vencedor sem ser campeão. Ainda mais em um esporte que por diversos fatores, muitas vezes acaba "cortando as asas" de grandes talentos.

A história de Boesel na Stock Car já fora contada aqui no blog, em postagem datada de outubro de 2014, que você pode conferir neste link. Mas hoje falaremos especificamente sobre as suas participações nas edições das Mil Milhas Brasileiras, começando pela edição de 1989.

Naquele ano, houve a abertura do regulamento para carros fabricados fora do Brasil, oportunidade em que fora inscrita uma Mercedes Benz 190E 2.3 sob o nº 48, que naturalmente causou grande expectativa para aquela edição, que veio a ser a última disputada no antigo traçado.

Porém, o bólido alemão ficou só na expectativa mesmo, pois o trio Raul Boesel/ João "Capeta" Palhares/Raymond Lourel, sendo este último piloto francês e proprietário do carro, ficou pelo caminho ainda durante a madrugada, em virtude de um problema no circuito eletrônico da injeção/ignição, enquanto liderava a prova com Raul Boesel ao volante. Lourel não chegou a pilotar o carro.

A sua próxima participação em Mil Milhas ocorreu tão somente 05 anos depois, naquela que é considerada uma das maiores edições da prova, tamanha a repercussão pela participação de pilotos nacionais de renomados e outros estrangeiros, além da inscrição de máquinas nunca antes vistas na pista paulistana.

Neste ano, Boesel utilizou um Ford Escort RS Cosworth, uma fera que contabilizou várias vitórias em ralis na Europa, equipada como motor turbo 2.0i de 440 hp e tração integral. A pilotagem foi dividida com Rubens Barrichello e Rudiger Schmidt (GER), e o 5º lugar no grid foi bastante animador. Mas a corrida não durou muito tempo, pois o carro nº 9 teve problemas de câmbio, e após 37 minutos parados no boxes, a equipe não conseguiu solucionar o problema, impossibilitando a volta à pista.

Após o longo hiato de participações entre 1995 e 2001, a sua volta à prova ocorreu de forma triunfal em 2002. Pilotou o carro vencedor do ano anterior, um Porsche 911 GT3 RS, com motor 6 cilindros aspirado de 3.6 litros e 24 válvulas, preparado pela equipe Stuttgart. Também vencedores do ano anterior foram os companheiros de Boesel na empreitada, neste caso, Flávio Trindade e Régis Schuch. Saindo da 3ª posição no grid e após 11h50min55s de prova, Boesel e companheiros alcançaram a vitória, com a maior diferença registrada entre o 1º e o 2º lugar na história da prova: 27 voltas.

Para o livro Mil Milhas Brasileiras 50 Anos, do jornalista Livio Oricchio, lançado em 2006, Boesel deu a seguinte declaração sobre a corrida:

"[...] Acho que foi um dos mais desgastantes testes físicos que já passei. Pilotei cerca de 70% do tempo. Faziam parte da equipe também o Flávio Trindade e o Régis Schuch. Eu classifiquei o carro e larguei. Nossa autonomia era de mais ou menos uma hora e vinte minutos. O Régis havia deixado bem claro que não conduziria à noite. Eu e o Flávio teríamos de nos revezar enquanto não tivesse luz natural. Larguei, fiz o primeiro pit stop e continuei na prova. Já estava pilotando há duas horas e quarenta quando parei pela segunda vez.

Disse a mim mesmo que aquele pit stop viera em boa hora, pois me sentia um pouco cansado. O Flávio assumiu o Porsche. Eu estava deitado e cerca de 40 minutos depois de parar, entraram correndo no motorhome para avisar que me preparasse. O Flávio havia comido algo ou tomado uma medicação e não se sentia bem. E o Régis no escuro não conduziria. Fui para a pista de novo para mais duas tocadas. O Flávio fez a seguinte, eu mais uma e o Régis terminou a corrida nos últimos 45 minutos, quando já havíamos estabelecido boa vantagem para o segundo lugar. Senti-me feliz pela conquista e comigo mesmo, por conta de como conseguimos ganhar a corrida".

Em 2003 correu defendendo o título, novamente com o Porsche GT3 RS da Equipe Stuttgart, mas tendo como companheiros o jovem Ricardo Maurício (que corria de Fórmula 3 Espanhola na época, sagrando-se campeão da categoria no final daquele ano) e Paulo Bonifácio. Mas infelizmente um problema no macaco hidráulico do carro fez com que o trio perdesse 03 voltas com o Porsche parado nos boxes, eliminando as chances de vitória e deixando-os na 3ª posição na geral (com 368 voltas completadas).

Porém a briga pela vitória com Ingo Hoffmann (que seria o vencedor da prova, com outro Porsche) ficou guardada na memória do alemão, como ele resumiu para o livro Mil Milhas Brasileiras 50 Anos:

"[...] Aliás, a luta com o Boesel depois da largada, a nossa primeira tocada, foi uma das coisas mais memoráveis da minha carreira. Tiramos o literal racha. Durante uma hora e quarenta, mais ou menos, com o asfalto ora mais molhado, ora mais seco, nós lembramos nossos tempos de moleques nas ruas. Costurávamos no meio do tráfego em Interlagos. Um momento eu conseguia abrir um pouquinho dele, mas de repente ele passava e abria o mesmo de mim. Tive nesse dia um dos grandes prazeres nesse negócio de pilotar".

Ausente na 32ª edição, disputada no aniversário de 450 anos da cidade coração do Brasil, Boesel voltou em 2005, sempre a bordo do Porsche 911 GT3 da Stuttgart, oportunidade em que dividiu a tocada com os vencedores de 2001, Max Wilson e André Lara Resende (vencedor também em 1996, com um Porsche 911 Turbo 1971), além de Marcel Visconde. O trio terminou a prova numa discreta 7ª posição.

Para a edição que celebrou os 50 anos da prova, realizada em janeiro de 2006, Boesel estava inicialmente inscrito em um dos Aston Martin DB9-R da equipe Capuava Racing, do saudoso Alcides Diniz. Porém, o bólido inglês teve problemas de motor ainda nos treinos, impossibilitando a participação na prova. Como consequência, Boesel e o Português ex-F1 Pedro Lammy foram remanejados para o Mercedes Benz CLK DTM, cuja pilotagem fora dividida com Tony Kanaan, substituindo na Mercedes o então bicampeão da Stock, Giuliano Losacco, que não pôde correr por conta de problemas de saúde, e o ex-Stock Car Beto Giorgi.

No grid, alcançaram a 9ª posição, com o tempo de 1min36s437. O lindo bólido, derivado do DTM, chegou a ocupar a ponta da classificação geral, quando liderou 02 voltas na 1ª hora da disputa. Contudo, terminou a prova na 2ª colocação, com 05 voltas de desvantagem para o vencedor, o Aston Martin DB9-R de Nelson Piquet/Nelsinho Piquet/Helio Castroneves/Christopher Bouchut (FRA).

2007 foi um ano atípico para a prova, pois além de ter sido chamada de Mil Milhas Brasil, fez parte do campeonato Le Mans Series, sendo a 6ª e última etapa do certame. Repleto de pilotos e carros de alto nível, o grid foi formado por 23 bólidos, divididos em 04 categorias. Boesel disputou a prova com o Porsche 997 GT3 - RSR 3.8 da Stuttgart Sportscar/Dener Motorsport, em trio com Marcel Visconde e Flávio "Nonô" Figueiredo, sendo que a corrida teminou com 318 voltas completadas, deixando-os na 12ª posição.

A última participação de Raul Boesel em uma Mil Milhas Brasileiras ocorreu em 2008, ano que marcou o fim de uma era para a história da prova. E foi também a sua segunda conquista, ao receber a bandeirada depois de 368 voltas completadas, dividindo a tocada do Porsche 911 GT3 RSR 3.6 da Stuttgart Sportscar/Dener Motorsport com Marcel Visconde e Max Wilson, que também celebrou a sua segunda vitória em Mil Milhas. O grid foi novamente formado por 23 carros, e os adversários mais ferrenhos eram o Protótipo Mitsubishi Eclipse de Eduardo Souza Ramos/Geraldo Piquet/Leandro de Almeida, o Protótipo Dimep Chevrolet V8 da Família Pimenta (Dimas Filho, Dimas III e Rodrigo) e do saudoso Alfredo Guaraná Menezes Jr., além de Ferrari GT2 360 e de algumas Maseratis GT oriundas do antigo Trofeo Maserati, absorvido pelo GT Brasil. Com os problemas dos adversários diretos, Boesel & Cia venceram a prova, cuja largada foi dada às 11 horas de um domingo, com 23 voltas de vantagem para o Protótipo Mitsubishi Eclipse.

E essa foi nossa singela homenagem aos 66 anos do grande Raul Boesel, que infelizmente teve sua maior homenagem - o Autódromo Internacional de Curitiba - substituída por projetos da especulação imobiliária, deixando somente lembranças de uma pista que além de técnica, tinha um lindo cenário em sua volta.